Um torcedor de futebol apaixonado como eu vive em constante sofrimento. E, por Deus, como dói essa forma de amor incondicional. Principalmente quando se torce por um time que dificilmente chega a decisões e não possui o mesmo poderio financeiro dos "grandes", como é o caso do meu Bugrão. É caso de amor incorrespondido: devo ter desenvolvido uma LER em minha garganta, de tanto gritar, berrar, vibrar e vociferar com gols perdidos, juízes incompetentes, erros de passes, pênaltis cobrados para fora, impedimentos mal marcados.
Ontem ouvi, por uma rádio na Web, a mais um jogo do meu Guarani. E, ah, que amor mais ingrato. Quando, aos 47 minutos do segundo tempo, ouvi o locutor da rádio dizendo que um gol eminente do meu time havia sido perdido por questão de milímetros, não pude me conter: soltei todos os palavrões da língua portuguesa e mais alguns inventados no calor da raiva, da frustração e da decepção profunda. Me senti, sei lá, como um adolescente apaixonado que vê sua amada platônica beijando um rapaz do terceiro colegial. Ou como um atleta que tropeça a 10 metros da linha de chegada, e testemunha, estatelado no chão, um outro cara vencendo a corrida que estava nos seus pés. Por tão pouco, por tão pouco.
O amor é ingrato e egoísta, e o destino dos amantes é de sofrimento. Mais uma vez meu time não correspondeu às esperanças que me foram fomentadas por uma boa campanha no Campeonato Paulista. Mas é isso mesmo: promessas de amor, meu bem, não valem nada, e se dissipam, voláteis, no etéreo território das ilusões. Torcedor de futebol é uma raça triste como a carne.
Eu poderia ser flamenguista, corintiano ou gremista, e comemorar, ano sim, ano não, a conquista de algum campeonato. Porém, amor não se escolhe: simplesmente acontece. Vá lá: por não ter sido mal acostumado com a fartura de títulos, cada vitória conquistada, cada gol feito, cada avanço na tabela do campeonato me é motivo de júbilo. É o lado positivo de não se enveredar pelo caminho do óbvio, ao adotar, de todo coração, uma agremiação que não pertença à confraria dos "grandes".
Sim, você pode achar que é uma grande bobagem eu sofrer tanto por causa de um acontecimento tão fútil quanto o Campeonato Paulista ("E a guerra no Iraque? E o Fernandinho Beira-Mar? E as criancinhas, quem vai olhar pelas criancinhas?"). Mas, oras, o amor não é uma lente de aumento que amplifica cada mínimo detalhe do cotidiano? E, sei lá, eu não posso me martirizar de ciúmes porque encontrei a foto de um ex-namorado escondida no meio de um livro? Ou ser punido com uma greve de silêncio porque esqueci a data de celebração do décimo quarto mês em que nos conhecemos? Ou brigar horas a fio no telefone por um estopim tão besta quanto um olhar de viés que dirigi à prima da minha namorada? Mon ami, quando adentramos o território da paixão, a lógica cartesiana dança rumba e sai de fininho.
Enfim: sou feliz, e muito feliz por possuir o privilégio de torcer para o Guarani (amar sempre vale a pena). Mas, por Deus, como amar pode ser dolorido.
Trocando de biquini sem parar (publicado originalmente no Spam Zine 058)
Em tempos dantes navegados, 31 de março era celebrado na escola como o Dia da Revolução (sic) de 1964, e éramos obrigados a pintar bandeirinhas do Brasil e a cantar o Hino Nacional no pátio do colégio. Com as mãos encostadas no peito, soltávamos nossas vozinhas agudas em uníssono, repetindo mecanicamente uma letra hermética, como se isso fosse capaz de despertar ufanismo em alguém. Oras, é como esperar que um moleque de 11 anos vá criar gosto pela leitura depois de ser obrigado na escola a ler Iracema ou Eurico, o Presbítero. Mas, no meu caso, o Hino soava mais nonsense ainda. Porque, na maior das convicções pueris, eu cantava a seguinte pérola: "Elvira do Ipiranga às margens plácidas". Passei anos intrigado com o misterioso papel de Dona Elvira na proclamação da independência, especulando se não era um pseudônimo da Marquesa da Santos.
Anos mais tarde descobri uma expressão, aparentemente criada por Paulo Francis (na época do primeiro Pasquim), para definir essas ocasiões em que a cabeça da gente viaja longe e recria maionesicamente letras de música: "virundum". Inspirada, bobviamente, pelo fatídico verso inicial de nosso hino, que até hoje causa lapsos em patriotas incautos e jogadores da Seleção, ao cantarem coisas como "verás que um FILISTEU não foge à luta" ou "do que a terra MARGARIDA". Há uma expressão mais contemporânea: "dibikini". Originada por um velho hit do grupo Brylho, Noite do Prazer: "na madrugada vitrola rolando um blues/ tocando B. B. King (ou: trocando de biquíni) sem parar".
Os americanos também possuem um termo para isso: "mondegreen". Para que vocês vejam como a história é antiga, a expressão data de 1954, quando a jornalista musical Sylvia Wright confessou, em um artigo, que havia entendido "lady Mondegreen" no verso de uma canção que dizia "and laid him on the green". No site Kiss This Guy é possível encontrar mais de 2.500 exemplos de letras involuntariamente modificadas. Eye of the Tiger, a música-tema de Rocky, o Lutador, tornou-se "Ivan the tiger". Love in an Elevator, do Aerosmith, virou "loving an alligator". E daí pra pior.
Aqui no Brasil, o "mondegreen" mais hilariante que conheço foi descrito por Mário Prata. Uma amiga dele confessou que, ao ouvir Ciranda Cirandinha, entendia que o verso "o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou" significava "o amor de Tumitinha era pouco e se acabou". Para ela Tumitinha era o diminutivo carinhoso de Tumita, um garoto japonês que se decepcionava demais toda vez que se deparava com a volatividade de suas paixões. Quando descobriu que o tal garoto não existia, sofreu pra burro. Parece que ela faz análise até hoje.
Uma grande "especialista" em virunduns é minha amiga Patricia Correia, a Sra. Pedro Vitiello. Que, ao cantar o tema do Sítio do Pica-Pau Amarelo, em vez de "bananada de goiaba, goiabada de marmelo", cometia: "banana a dar de goiaba, goiaba a dar de marmelo".
Outra amiga minha que repassou exemplos ótimos de virunduns é Maria João Amado, a mãe da Júlia. Repasso a palavra a ela:
"Eu tenho 2 músicas que juropurdeus que ouvia diferente: uma é 'Como Nossos Pais'. Naquela parte do 'contando o vil metal', eu entendia 'cortando fio dental'. :) E a outra é uma música de Luiz Gonzaga que diz: 'Luiz respeita Januário.../ Respeita os oito baixos do teu pai'. Eu entendia, e cantava: 'respeita os 'ovo baixo' do teu pai'. KKKKKKKKKKK
Tem uma outra historinha bonitinha de meu irmão mais novo. Um belo dia saímos em família para lanchar na McDonald's recém-inaugurada (isso foi em 87), e Jonga, meu irmãozinho, do alto dos seus 7 anos falava que os Beatles isso, e os Beatles aquilo. Meu Big Brother (irmão mais velho), já de saco cheio da falação, intimou:
- Você conhece os Beatles?
- Claro. conheço muito.
- Ah, é? então diga pelo menos 1 música deles.
- Fácil. Tilóptium!
(todos juntos) - O quê?
- Tilóptium!
- E que música é essa?
- Aquela... Tilóptium yeah, yeah, yeah..."
Vai, confessa aí: qual foi o pior "virundum" que você já cometeu? Compartilhe suas recriações musicais no espaço dos comentários...
- Paulo Polzonoff, jornalista paranaense responsável por um dos melhores e mais polêmicos blogs brasileiros, escreveu em 19 de fevereiro um post sobre a guerra que rendeu nada menos do que 88 comentários. Em meio à enxurrada de elogios, ofensas, bajulações, xingamentos e reações passionais catalisadas por seu texto, Polzonoff resolveu lançar o concurso "Seja Pacifista, Mas Não Seja Burro", que premiará com livros e CDs os melhores (e menos bóbvios) artigos a favor da paz. O detalhe saboroso do concurso é o índex de palavras e expressões que terminantemente não podem ser utilizadas nos textos. Clique aqui para conhecer o regulamento e saber como participar desta promissora peleja.
- Todo blogueiro que possui em sua página um sistema de estatísticas está cansado de saber que uma das maiores fontes de visitantes é a horda de internautas em busca de fotos de mulheres desnudas (acreditam que toda semana alguém vem parar aqui procurando por fotos da Playboy da Lidia Brondi ou da Luciana Vendramini?). Ciente disso, Cristiano Dias criou uma página de redirecionamento para qualquer pessoa que chega ao seu weblog oriundo de uma busca com a palavra "nua". Em uma palavra: genial.
- Ainda no site do CrisDias, descobri a existência da singela página da Samara Comenta, "empresa" criada com o objetido de suprir a necessidade que muitos blogueiros carentes possuem em ver os seus posts comentados. Acesse djá!
- Há exatamente um ano, o Evasão de Privacidade subiu no telhado. Cliquem aqui e aproveitem para cobrar do Zé Vicente a volta de quem não deveria ter ido.
- Falando em blogs finados, Cecilia Giannetti recém-encerrou as atividades do seu Notas Gonzo, e explica seus motivos a Alexandre Matias do Trabalho Sujo. Por sorte, continua publicando seus textos na Web: seu texto sobre a zorra que assolou o Rio de Janeiro é imperdível.
- E que o Sub Rosa (viu, Meg?), quando retornar (o mais breve possível) ao ar, traga consigo o Taperouge a tiracolo.
- Pensar Enlouquece é o blog nota 10 da coluna do Gravatá desta semana. A casa penhorada agradece. :)
Ponteiros são nada;
tempo não se ata a números.
Tempo é bicho sem Deus,
livre, deliciosamente livre.
Tudo é a sua morada.
Tempo cura tudo,
tempo não tem cura.
Sem como nem porquê
tempo vai passando.
Tempo, até quando?
Tempo é o verde do broto,
tempo é o verde do mofo.
Tempo é aprendizado e esquecimento.
Tempo é menarca e menopausa.
Tempo é menos.
Tempo é o sangue cicatrizado na pele.
Tempo é a dor de um parto.
Tempo é um filme cujos atores morreram.
Tempo é computador ultrapassado.
Tempo é a chuva e o rosto em silêncio.
Tempo é carro preso no engarrafamento.
Tempo é o pó na fotografia dos pais.
Tempo é a fúria de dois corpos na cama.
Tempo é o som das folhas libertando-se do galho.
Tempo, serpente afirmadora da vida.
Tempo passa passa tempo,
passa rápido passa lento.
Sem trilhos, corre como trem.
Sem asas, voa feito avião.
Sem pena, vai.
Os amigos já conhecem meu jeito relapso de ser, sempre procrastinando as coisas. Por exemplo, e-mails. Via de regra, meu winchester está constantemente abarrotado com Torres de Pisa formadas pelas mensagens acumuladas para responder. Não é por desdém ou descaso, eu juro: simplesmente não consigo administrar decentemente o meu tempo pessoal. Já tentei dar um jeito nesse lapso imperdoável de minha personalidade, mas, por enquanto, o pau continua torto (sem duplo sentido).
O mesmo se aplica aos comments deste blog, que freqüentemente são mais interessantes que os próprios posts, vide as contribuições que visitantes como Nelson Moraes, Marcelo Valetta, Enio Martins, Andrea Tedeschi, Júlia Hansen, João Antônio Bührer, AnaP, Denis Klein, Majarti, Aline Limãozinho e a menina do Mustang (só para citar alguns dos mais presentes) deixam por aqui. Sem esquecer, é bóbvio, dos internautas que contrariam a máxima de que apenas blogueiros lêem blogs, e ainda possuem sanidade suficiente para não sucumbir a este vício. Para vocês (e também para os leitores mais tímidos), um abraço especial: Artur, Cynthia, Elacoelha, Donna, Marlos, cumpadi AL-Chaer, Ivan, Rod, Lakshmy, Leandro de Floripa, Kato, Paulo E. Miranda e Cy, a mocinha de Taubaté. :)
Eu sei que jamais conseguirei ser tão atencioso como cumpadi Matusalém Matusca, que responde cada comentário um por um. Mas enfim, os posts a seguir são um começo.
Sendo filha de oftalmologista eu descobri cedo que teria que usar óculos (sim, porque TODOS os oftalmo usam - eles fazem a faculdade só de trauma - e passam a quase-cegueira pra gente, filhos inocentes), mas por resistências próprias (vaidade?), também não uso o tempo todo, só pra ler e ver TV ou tarefas afins. Uma das vantagens da hipermetropia. São 4 graus mas dá até pra dirigir sem eles.
Acho que o amor pra mim é assim, também: ajustável. Eu guardo na caixinha pra não me tornar dependente. Mas, da mesma forma que uma noite na internet deixa o meu mundo "menor" quando eu levanto da cadeira e tiro os óculos, o amor deixa em mim rastros absurdos, que custam a sarar.
Fora de foco. Não tinha um jeito melhor pra explicar. Lindo, lindo. Agora já sei como justificar aqueles dias de fossa maior, quando alguém me perguntar: 'com licença, mas meu mundo está fora de foco. Perdi minhas lentes mais bonitas, as que não tinham preço'".
Lucy, antes de mais nada: obrigado. Atrasadíssimo, eu sei (timing nunca foi o meu forte). Mas é que, quando leio comentários como o seu, me sinto plenamente recompensado por publicar meus garranchos por aí. :) Sobre o tal do amor, eu me identifico terrivelmente contigo, quando você diz que precisa guardá-lo na caixinha para não se tornar dependente dele. Nessas horas, sempre me lembro de uma passagem de Sandman, a HQ maravilhosamente roteirizada por Neil Gaiman, que diz: "O amor faz reféns. Ele entra em você. Devora tudo o que é seu e te deixa chorando no escuro. Por isso, uma frase simples como 'talvez a gente devesse ser apenas amigos' ou 'muito perspicaz' vira estilhaços de vidro rasgando seu coração".
Amor é um bicho esquivo e perigoso. Uma vez domado, deixa que a gente se apegue a ele. E a desgraça é essa: muitas vezes, assim que a gente finalmente se rende, não é que o filhodaputa foge, não deixa endereço nem telefone, e cavouca um buraco fundo no coração, daqueles quase incicatrizáveis? O amor, por ser a manifestação mais intensa da vida, é responsável pelas maiores alegrias e dores deste mundo. E aí, mon ami, é pegar ou largar: ou você opta por adotar uma postura contemplativa, renunciando a sentimentos maiores e contentando-se em observar complacente o espetáculo do mundo, ou se joga de cabeça no bungee jump das paixões, correndo o risco de quebrar a cara ou, até mesmo, de ser a pessoa mais imbecil e feliz da face da Terra.
Há óculos que incomodam. Mas também há aqueles que tornam o mundo tão bonito que compensam plenamente o seu vício.
"Inagaki, isso é incrível! A foto comprova que você era um sósia daquele besouro japonês do desenho da Cobrinha Azul ('tuli-tuli-tulá, agora eu vou papar...'). Amplexos".
Ruy, o grande problema de sua afiada comparação é a analogia que algumas mentes sujas podem fazer com a trama do desenho, uma vez que a Cobrinha Azul freqüentemente assediava o Besouro Japonês porque desejava comê-lo (no sentido gastronômico). Cabe ainda explicar que na foto supracitada eu estava propositadamente fazendo um sorriso de mangá por fins meramente cômicos, e que a mesma não reproduz fielmente o rapaz bem-apessoado que sou. Feitos os esclarecimentos, posto abaixo minha foto e uma reprodução do Besouro Japonês para dirimir quaisquer dúvidas sobre apressadas comparações:
"Então Deus disse: crescei-vos e multiplicai-vos. Até o Senhor que é o próprio Senhor soube ser explícito o bastante para dizer que a gente só quer fuder. Pra que tanta filosofia? Só podia ter mulher no meio. Tsc, tsc. Não é machismo nem pitbichismo, a real não é nenhuma novidade: mulher complica (...) Obs.: Apesar de alguns pequenos impasses eu adoro, venero, idolatro, exalto, etc. as mulheres. Aquilo foi de brincadeira... :) Só pra esclarecer né".
... a despeito da observação, Donna respondeu ao comentário de Simius:
"Tem mulher no meio? (rs). Tem.
Mulher complica?
Pra que tanta filosofia?
Se não tivesse mulher no meio, como os machos convictos iriam 'fuder'? Mulher complica mas vocês comem. Aliás, deve ser muito ruim 'comer' algo tão complicado e 'filosofal'. Um grande sacrifício!
Baseando nesse 'princípio filósofico', eu, mulher complicada e que estou no meio e não sou filósofa, concluo que sou mais feliz com a condição de hetero e mulher. Adoro Homens! E não é nenhum 'sacríficio' fazer sexo com 'seres' tão imperfeitos que platonicamente ou não, gostam".
Já que os leitores deste blog puxaram algumas cadeiras para participar da conversa de bar, peço a palavra de volta para dizer o seguinte: mulheres, graças a Deus, são docemente complicadas e perfeitinhas, como dizia aquela música dos Raimundos. Adoro conhecer mulheres, seja no sentido bíblico ou pela pura amizade, seja para discutir os Tratados Lógico-Filosóficos de Wittgenstein ou o próximo paredão do Big Brother. E se as mulheres vieram a este mundo para "complicar", como afirmou de brincadeira o meu colega Simius, elas o fazem para sacudir deste mundo o pó da rotina que certamente se imporia às nossas vidas se não fosse pela argúcia, sensibilidade, malícia e wit que só as representantes do sexo feminino possuem.
Mas que mulheres são complicadas, isso lá é verdade. Cito uma sábia afirmação de meu primo William: "mulher é bicho bão, mas dá muito trabalho". :)
"mas o final das cidades invisíveis é fantástico. concordo que se o viajante... fica aquém. mas o final das cidades invisíveis, por deus, não tem explicação. saca só:
'O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço'".
Sim, Nasi; assino embaixo, em cima e dos lados da sua adjetivação para o final de Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino: é fantástico. Mas quando eu enquadro o livro do Calvino na categoria de quase obra-prima, é por causa do meu conceito pessoal do que seja genial. As parábolas de Cidades Invisíveis são embasbacantes, prodígios da imaginação. No entanto, não narram uma história: apesar de abertas a infinitas conotações, são ensimesmadas em suas metáforas. Não ofuscam a magnitude da obra; simplesmente renunciam ao poder que um escritor possui de contar uma boa história, feito aquelas que nossos antepassados ouviam antigamente ao redor de uma fogueira.
Tento me explicar melhor: o meu senão a Cidades Invisíveis não está na linguagem, e sim na opção feita por Calvino em priorizar a forma e os jogos lingüísticos em detrimento da narrativa. Tenho um pé atrás a certas experimentações pós-modernistas: conhece aquela piada sobre as obras do Cinema Novo, em que os críticos diziam que o diretor era genial mas o filme era uma merda? Não é o caso de Ítalo Calvino, mas já li diversos livros deliberadamente escritos com a intenção de agradar a críticos e outros escritores, e que via de regra descambam em um hermetismo modorrento e babacamente pretensioso.
IMHO, obras-primas incontestáveis são aquelas que conseguem conciliar experimentação formal a boas histórias. Veja, por exemplo, O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar, que não se limita a tecer jogos de palavras fechadas numa concha cerebral. Junto às elucubrações metalingüísticas de Morelli, Cortázar narra com maestria as histórias de Maga, Horácio, Rocamadour, Traveler, Talita; são vidas fictícias que transcendem a condição de peças em um xadrez metalingüístico.
"Cortázar - um dos meus preferidos - também adorava, sempre brincava de leve em contos - 'Atale, demoniaco Cain, o me delata' -, mas não sei se chegou a escrever algum 100% nessa base. Cê sabe de algum?"
Cynthia, Cortázar não chegou ao ponto de fazer como o Perec e escrever um texto totalmente palindrômico. Mas escreveu dois contos inspirados por palíndromos: "Distante", do livro Bestiário, e "Satarsa", publicado em Deshoras. Vale a pena ainda transcrever um trecho desta entrevista com o autor de As Armas Secretas: "quando descobri os palíndromos (eu não sabia que eles existiam, mas em um livro encontrei o primeiro, aquele que diz 'dábale arroz a la zorra el abad' (o abade dava arroz à raposa), que é uma frase muito grande), quando a escrevi no papel ou no ar e percebi que dizia a mesma coisa, senti-me instalado numa relação mágica com o idioma".
Estes são alguns dos palíndromos criados por Cortázar:
Anás usó tu auto, Susana.
Ateo por Arabia iba raro poeta.
Amigo, no gima.
Salta Lenin el atlas.
Adán y raza, azar y nada.
Em tempo, vale ainda citar o nome de Juan Filloy, escritor conterrâneo de Cortázar, que o citou em sua obra-prima O Jogo da Amarelinha. Filloy, que viveu até os 105 anos de idade, criou cerca de seis mil palíndromos, como "No di mi decoro, cedí mi don" e "Ateo por Arabia iba raro poeta", e considerava, não à toa, que o espanhol é o idioma mais palindrômico do mundo.
22.2.03 Uma pergunta da série "Coisas que Nunca Entendi": por que alguns casais de namorados apelidam o outro de "meu chuchuzinho"? Não sei quanto a vocês, mas eu considero chuchu um dos alimentos mais insípidos da face da Terra. Músicas de Kenny G, Orlando Morais, Jorge Vercilo e Mariah Carey são verdadeiras odes ao chuchu. Em jogos como Olaria e XV de Piracicaba, vendedores ambulantes oferecem picolés de chuchu no estádio. Um Amaury Júnior entrevistando Angélica e Maurício Mattar combina perfeitamente com suflê de chuchu no almoço. Ler um balanço patrimonial redigido em sânscrito, passar uma noite preso no elevador com João Kléber, assistir à filmografia completa de Jennifer Lopez, ter o dente do siso arrancado, happening com estudantes de teatro declamando poemas de Wally Salomão e JG de Araújo Jorge: chuchu, chuchu, chuchu, chuchu e... ah, sim! Chuchu.
"A felicidade só existe quando você acredita nela". (Millôr Fernandes)
"um dia sobre nós também
vai cair o esquecimento
como a chuva no telhado
e sermos esquecidos
será quase a felicidade" (Paulo Leminski)
"Poucas pessoas conseguem ser felizes, a menos que odeiem outra pessoa, nação ou credo". (Bertrand Russell)
"Vem me fazer feliz porque eu te amo
Você deságua em mim e eu - oceano
E esqueço que amar é quase uma dor"
(Djavan)
"Felicidade é uma palavra que tem música". (citado por Pedro Bloch)
"Felicidade foi-se embora
E a saudade no meu peito inda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Onde sei que a falsidade não vigora"
(Lupiscínio Rodrigues)
"É difícil dizer o que traz a felicidade: tanto o dinheiro quanto a pobreza fracassaram". (Kim Hubbard)
"Felicidade brilha no ar
Como uma estrela que não está lá"
(Fábio Junior)
"Felicidade é saber que ainda faltam muitos dias para as férias acabarem". (citado por Pedro Bloch)
"Cores do mar, festa do sol
Vida é fazer todo sonho brilhar
Ser feliz
No teu colo dormir
E depois acordar
Sendo o seu colorido
brinquedo de papel machê"
(João Bosco)
"Feliz é o que você vai perceber que era, algum tempo depois". (Millôr Fernandes)
"É duro ficar sem você vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que vou mergulhar
Na felicidade sem fim"
(Dominguinhos/ Nando Cordel)
"Felicidade - sensação agradável decorrente da contemplação da miséria alheia". (Ambrose Bierce)
"Tudo de lindo que eu faço
Vem com você, vem feliz
Você me abre seus braços
E a gente faz um país"
(Marina Lima/ Antonio Cícero)
"E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes que mataremos por amor". (Clarice Lispector)
"Tristeza não tem fim
Felicidade sim"
(Tom Jobim/ Vinícius de Moraes)
"Felicidade é quando o coração enche e eu fico com vontade de cantar o tempo todo. Aí vem papai e diz: 'Que barulho é esse, menino?'". (citado por Pedro Bloch)
"O mundo acordar
E a gente dormir, dormir
Pro dia nascer feliz
Ah, essa é a vida que eu quis"
(Cazuza/Frejat)
"A única coisa que faz a felicidade de uma mulher é quando ela consegue aparentar dez anos a menos do que a própria filha". (Oscar Wilde)
"Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
No outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
E ser feliz"
(Almir Sater/ Renato Teixeira)
P.S.: Este post é dedicado à minha irmã Carla, para quem desejo toda a felicidade deste mundo na nova etapa de sua vida. Apesar de não ser blogueira, adora gatos - razão da ilustração deste post. Boa sorte, maninha. Já sinto sua falta!
No livro de entrevistas de François Truffaut com Alfred Hitchcock publicado pela sumida editora Brasiliense, encontrei o interessante conceito de "grandes filmes doentes". Que, segundo a explicação truffautiana, serve para qualificar empreendimentos ambiciosos que sofreram erros de percurso, e não chegaram ao quilate de obras-primas incontestes devido a problemas vários: escolha equívocada do casting, defasagem grande demais entre a intenção e a execução da obra, filmagens envenenadas pelo ódio ou cegadas pelo amor.
Transpondo este conceito para as letras, sempre penso em Ítalo Calvino como o exemplo perfeito de "grande literatura doente". Li duas obras do Calvino, "As Cidades Invisíveis" e "Se um Viajante Numa Noite de Inverno...", e ambas me propiciaram a mesmo sensação: são livros indubitavelmente brilhantes, mas que não atingiram o status de obras-primas por fatores diversos. Exemplos: um desvio no percurso original, a discrepância entre a ambição artística e a realização em si, um começo simplesmente perfeito com um desfecho aquém do potencial, a fome desmedida pelo "make it new" poundiano ou o espectro joyceano prejudicando a fluência natural de uma narrativa.
Em tempo: admiro intensamente os escritores modernos (como Eliot, Woolf, Pirandello, Kafka, Borges, Lorca e Cortázar), mas ao mesmo tempo lamento que o furacão por eles catalisado tenha restringido a produção de narrativas menos "desconstrutivistas" e "intertextuais", à feição de grandes contadores de histórias como Jack London, Stephen Crane e Robert Louis Stevenson.
E assim, fica o gosto da "vida que poderia ter sido mas não o foi". Ah, se o restante de "Se um Viajante Numa Noite de Inverno..." fosse tão brilhante quanto este trecho inicial... O livro de Calvino, por melhor que seja (e eu recomendo fortemente a leitura desta obra), me dá a nítida impressão de ser como aqueles longas-metragens que, se tivessem sido filmados como curtas, seriam irretocáveis. Mas, alongados, assemelham-se a piadas que perdem força e graça quando esticadas demais.
"Já na vitrine da livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo esta pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras, olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e mais hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para Outros Usos Que Não a Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros Já Lidos Antes Mesmo De Terem Sido Escritos. Assim, após você ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Para Viver, Certamente Leria de Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos, você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem Revendidos Pela Metade do Preço, dos Livros Idem Que Poderia Pedir Emprestados A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você alcança as torres do fortim, onde ainda resistem os Livros Que Há Tempos Você Pretende Ler, os Livros Que Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado, os Livros Que Dizem Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento, os Livros Que Deseja Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância, os Livros Que Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão, os Livros Que Lhe Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante, os Livros Que De Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente Justificada.
Bom, foi enfim possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um conjunto certamente muito grande, conquanto calculável num número finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já Seria Hora De Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria Hora De Decidir-se A Lê-los Realmente.
Você se livra com rápidos ziguezagues e, de um salto, penetra na cidadela das Novidades Em Que o Autor Ou O Tema São Atraentes. Uma vez no interior dessa fortaleza, pode abrir brechas entre as fileiras de defensores e dividi-los em Novidades De Autores Ou Temas Já Conhecidos (por você ou por todos) e Novidades de Autores Ou Temas Completamente Desconhecidos (ao menos por você) e definir a atração que eles exercem sobre você segundo suas necessidades e desejos de novidade e não-novidade (da novidade que você busca no não-novo e do não-novo que você busca na novidade).
Tudo isso para dizer que, após ter percorrido rapidamente com o olhar os títulos dos volumes expostos na livraria, você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos de 'Se Um Viajante Numa Noite De Inverno', pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de possuí-lo".
16.2.03 Estados Unidos e Inglaterra já enviaram mais de 150 mil (!!!) militares para o Golfo Pérsico. Tais números tornam quase inevitável a deflagração de uma guerra contra o Iraque, apesar das manifestações contrárias (em Londres, cerca de 2 milhões de pessoas foram às ruas participar de um protesto no Hyde Park).
Rafael Gomez, em reportagem para a BBC Brasil, além de descrever bem como foi o evento, teve o cuidado de ouvir o depoimento de um iraquiano que, apesar de ser favorável à saída de Saddam Hussein, critica veementemente a postura norte-americana. Vale a pena transcrever as palavras do entrevistado:
"Não queremos mais a influência americana. Em 1991, na Guerra do Golfo, eles deixaram Saddam Hussein no poder. Por quê? Porque era do interesse deles. O povo iraquiano deve escolher seus próprios líderes. Não pode ser como no Afeganistão - quem havia ouvido falar de Hamid Karzai antes dele ser colocado no poder no Afeganistão? Ele foi colocado lá pelos Estados Unidos. Nós precisamos de democracia, não de colonização ou hipocrisia. Os iraquianos precisam se rebelar, sozinhos, lutar pela democracia. O melhor que os americanos podem fazer é não se meterem. Principalmente por meio de uma guerra".
O amor é lindo, burro, débil mental, lobotomizante e brega. Quem já colecionou aquelas figurinhas da série "Amar é..." sabe bem como funcionam os mecanismos da paixão. A criadora desse singelo casal de peladinhos foi a neozelandesa Kimberly Grove Casali, que, em meados dos anos 60, morava como imigrante ilegal na Califórnia ao lado do italiano Roberto. Embevecida de amor, Kimberly espalhava desenhos por todas as coisas dele, acompanhados por textos proibitivos para qualquer diabético. Anos depois, quando se casaram, Roberto revelou à esposa que havia guardado todas aquelas ilustrações.
Em 1971, Kimberly resolveu oferecer aqueles desenhos ao jornal Los Angeles Times, que, vislumbrando o potencial de mercado daquelas ilustrações, adquiriu seus direitos de distribuição, passando a publicá-las diariamente. Resultado: sucesso total. Milhares de leitores aparvalhados de paixão identificaram-se imediatamente com a criação de Kim.
"Amar é..." em pouco tempo tornou-se uma franquia espalhada pelo mundo todo. Em 1976 Roberto, o muso inspirador da série, morreu de câncer. Mas a vida prosseguiu, e a série também. Em busca de novos caminhos para sua criação, Kimberly chegou a fazer desenhos com legendas do tipo "love is... an alligator with wings, but with sharper teeth than a regular alligator would have". No entanto, tais esquisitices não chegaram a abalar o sucesso dos personagens. Kimberly faleceu em 1997, 21 anos após a morte do marido. Atualmente as ilustrações são feitas pelo filho do casal, Stefano Casali, e continuam sendo publicadas diariamente em mais de 100 jornais espalhados pelo mundo.
No Brasil, a série "Amar é..." foi o primeiro álbum no país a ser lançado com figurinhas autocolantes, em 1979. De tempos em tempos, o álbum é relançado, sempre com grande sucesso. Afinal de contas, o Amor (oh!) nunca sai de moda...
(Observação: o post acima deveria ter sido publicado em 14 de fevereiro, o Valentine's Day. Devido a problemas técnicos com o Blogger Brasil, só consegui publicá-lo hoje.)
Alexandre Inagaki: Ainda bem que depois que cresci deixei de alimentar meu coração com a pobre dieta das paixões platônicas, que só têm graça para filósofos gregos e adolescentes cheios de espinhas e dúvidas existenciais.
Renata Parpolov: Que nada Inagaki, amor platônico é muito legal! Tem amor que sem dúvida é pra ser vivido, sentido, com todas as suas bocas, beijos e fluidos. Mas tem amor que você sabe que não é pra você, mas mesmo assim insiste em sentir. Amores que você só fica pensando na pessoa, imaginando como será que ela beijaria, ou faria sexo. E, claro, você imagina que a pessoa é perfeita, absurdamente perfeita em tudo, e que saberá te agradar da maneira mais detalhista que você jamais imaginou.
AI: Ms. Parpolov, eu entendo o seu ponto de vista. E faço aqui um mea culpa: talvez seja eu quem esteja por demais mergulhado no mundo dos sentidos, plenamente convicto de que vale mais uma trepada homérica do que zilhões de amores platônicos.
Ian Black: Não podemos esquecer o fato de que a masturbação é uma continuidade do amor platônico. São momentos em que o objeto do desejo é totalmente seu e você faz o que quiser, quando, onde e como você bem entender. Seja ela uma personalidade hollywoodiana ou uma pessoa estranha que passou do outro lado da rua.
RP: Platão tava certo sim. Quando você realiza o tal sonho platônico, descobre a imperfeição. Porque aí, tudo vira realidade: o beijo não é lá essas coisas, o fulano ou fulana faz um sexo meio medíocre mesmo, e, apesar daquele rosto perfeito, o tal indivíduo ou indivídua fala muita, mas muita besteira mais broxante do que um pum debaixo do cobertor. E você levanta, põe a roupa e vai embora pensando: "nossa, como era mais legal quando tava só na minha cabeça...".
AI: Sonhos sonhos são. Sei lá Renata, sou um cara que, em termos de amor, procura não idealizar muito as coisas. Porque apaixonar-se é desencadear um processo de criação de expectativas, que nem sempre se cumprem na realidade. Sim, eu compreendo a defesa que você faz do amor platônico. E sei, muito bem, o quanto é gostoso a gente de repente se perceber capturado pela arapuca da paixão, pensar NAQUELA pessoa e sentir o coração criando asas, dando cambalhotas, enxergando estrelas onde não há. Mas, putz, tem coisa melhor do que transportar esse mundo onírico pro nosso plano terrestre? Não sei, acho que sonhos são uma maneira de felicidade ilusória e transitória.
RP: Qual felicidade não é transitória babe!!!?? Às vezes sonhar pode ser melhor do que a realidade, às vezes não. Tem vezes que você descobre, tipo, sonhar era bom, aí você vai, faz e vê que é melhor fazer do que sonhar. Tem vezes que não, que você vê que teria sido melhor ter ficado sonhando. Mas tem vezes que você não descobre. Ué!! heheheh... Tem um amigo meu que diz que tudo pode ser.
IB: Um amor platônico envolve muito o MEDO de descobrir as imperfeições. Ou pior, o medo de nem haver a possibilidade de descobrirmos tais imperfeições. O problema é que sonhamos e sonhamos demais. O amor platônico acaba te incapacitando de criar elos possíveis de relacionamento. Mulder e Scully praticamente não têm relacionamentos por culpa do amor platônico vivido por eles. Neste caso, até NÓS podemos entrar na roda e ficar imaginando como poderia ser legal se os dois pudessem namorar, dividirem uma casa até. Mas no fundo ninguém gostaria disso, pois temos a consciência de que a graça está naquela tensão vivida pelos dois.
RP: Amor platônico na verdade é um jeito de sentir amor por si mesmo. Pelo que você seria, pra te agradar, se fosse a tal pessoa. Descobrir mais ou menos o que você quer pra você, e o tal "amado platônico" não passa de cavalo do santo. Claro que não pode ser algo do tipo "preciso conquistar fulano de qualquer jeito", porque aí vira um treco meio doentio e sem muita esperança de dar certo de nenhuma forma. Lembre-se: é tipo aquelas paixões do primário, que a gente não pode contar de jeito nenhum. Só que desta vez é diferente, porque você não quer que role, porque sabe que vai estragar.
AI: Pressuposto básico pra gente ser capaz de dar amor é amar a si mesmo. Mas, mais uma vez, continuo valorizando a experiência prática. Nada como conviver com alguém de quem a gente gosta mesmo pra tentar se tornar uma pessoa melhor: menos egoísta, mais tolerante, mais generoso. Porque amar é fazer pequenas concessões em nome de algo maior. Eu até dou o braço (um pouquinho) a torcer: amores platônicos possuem o seu encanto. Mas, comparados com um amor pra valer, são como ossos pra cachorro. Jogue um pedaço de picanha, e veja se o cão vai pegar o osso ou a carne...
RP: CALMA LÁ!!! Amor platônico não é lifestyle, é só uma certa massagem terapêutica na alma. Temos que amar SIM, temos que encontrar nossa cara-metade SIM, temos que ser bem resolvidos com nossos sentimentos e sexualidade SIM. "Amor platônico é um jeito de voar, porque alivia os pés cansados de só andarem na terra". (putz, falei bonito agora hein! Essa frase é de um cara chamado Ganymedes José :)).
IB: Ainda insisto no medo como a maior influência do amor platônico. Às vezes superamos este medo e até conseguimos viver um amor de verdade. Mas pode acontecer da gente conviver com alguém que a gente gosta MESMO, e acabar se tornando uma pessoa pior, egoísta, intolerante, gananciosa. Amores platônicos são bons quando percebemos que é praticamente impossível que ele tenha continuidade no mundo de verdade. Amores platônicos são uma merda quando percebemos que há uma possibilidade mínima de dar certo, e preferimos ficar no quentinho das nossas ilusões com medo de nos machucarmos por aquilo que acreditamos.
AI: Bão, o fato é que tenho meus senões pelo amor platônico porque valorizo mais as experiências práticas (continuo não trocando um beijo gostoso na boca por zilhões de oníricos).
RP: Eu também não troco. Mas troco um beijo ruim por meio beijo onírico gostoso. Pode até ser com a mesma pessoa aliás. Atualmente, uns três principes diferentes habitam os meus sonhos. Nada me garante que virarão sapos ao ser beijados, mas, ainda assim, melhor três príncipes na cabeça do que três sapos na mão. Irrrc!!!
IB: Amores "práticos", quando (possíveis e) bem resolvidos, são indiscutivelmente melhores que os platônicos. Poderíamos ter tido esta discussão algumas semanas atrás, não?
(este papo descompromissado em uma mesa de bar online foi publicado originalmente no Spam Zine edição 004)
- É até complicado falar de ações beneficentes nesta era pós-utopias. Todos acabam se tornando meio céticos, ou cínicos e meio, em tempos nos quais falar em "mudar o mundo" parece soar como discurso de algum órfão de Woodstock. Comove, desconcerta, emociona, pois, a iniciativa desencadeada por Rossana Fischer em prol de Lucas, bebê soropositivo que vive em um barraco de 14 metros quadrados. Vale a pena conhecer o blog que narra a história de Lucas, e, se possível, participar do leilão de uma aquarela de Dudi Maia Rosa, em benefício da família deste bebê.
- Você já conferiu o novo visual de Amarar em Nova York? O que já era bom agora também se contenta em ter um rostinho bonito. :)
- Ninguém verseja melhor sobre a bloglândia tupiniquim do que Nelson Moraes, o andarilho da praia. A não ser, talvez, o Artur; um comentarista pródigo que já passou da hora de criar o seu próprio blog...
- Eu, que me digladio em ter idéias para postar coisas interessantes neste site, fico embasbacado com a proficuidade de certos escrevinhadores. Por exemplo, o Ricardo Schott. Não satisfeito em publicar as excelentes resenhas musicais do Discoteca Básica, agora também mantém um blog mais pessoal mas com a mesma qualidade, o Rock The Cool Airholah!. É mole? É mole, mas não é duro não! Outro exemplo é o Fábio Fernandes, que desde já está intimado a me emprestar depois o seu exemplar de "Vida - Modo de Usar" do Georges Perec. Além de escrever no Pólis, mantém um blog dedicado a pequenas grandes ficções, o Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, e um outro sobre filmes, séries de TV & afins, o Cinephilia. Eu posso com esses caras?
11.2.03 Eu e meus irmãos Ronaldo e Carla encostados no Chevette 77 de meu pai, sabe-se lá quando.
Este blog ficou alguns dias sem atualização por uma boa causa: viajei a Bauru, cidade do interior de São Paulo a quatro horas de carro da capital, para acompanhar a festa de formatura do Ronaldo, meu irmão caçula. A viagem foi cansativa, o calor foi senegalesco e os discursos da colação de grau foram tão soporíferos quanto filme indiano com legendas em sueco. De resto, os clichês de sempre: slides com fotos dos formandos quando crianças foram exibidos, professores fizeram discursos conclamando os alunos a usarem seus dotes profissionais para o bem do País, e lôas musicais sobre amizade, incluindo os cRássicos "Canção da América" e "Amigos Para Sempre", foram tocadas nas cerimônias (só faltou "Amigos do Peito", da Turma do Balão Mágico).
Mas é preciso louvar as coisas boas. Meus ouvidos foram poupados de outras obviedades musicais como "We Are the Champions", e a festa de colação de grau foi encerrada com uma música mais do que apropriada: "Por Enquanto", da Legião Urbana (dos sintomáticos versos "estamos indo de volta pra casa"). Além disso, o grupo contratado para tocar na festa de formatura, Capitão Mamão, é um dos mais empolgantes que já vi em um palco. Os caras simplesmente tocaram da meia-noite às seis da manhã, pulando sem parar, desfilando com competência um repertório dos mais variados, que foi de Creedence Clearwater Revival a Village People, passando por covers de Beatles, Elvis Presley, RPM, Acadêmicos do Salgueiro e até mesmo MC Serginho (sim, atendendo a pedidos do público, eles fizeram uma versão hilariante da indefectível "Egüinha Pocotó").
No entanto, tudo isso pouco importa. O que valeu mesmo foi ter testemunhado a merecidíssima alegria do Ronaldo, que após quatro anos de muita labuta foi diplomado bacharel em Ciências da Computação. E a visão de meu irmão, sambando da maneira mais desajeitada e feliz possível no palco da formatura, junto com outros colegas de curso um pouco mais alcoolizados, certamente ficará guardada como uma das melhores lembranças de minha vida.
Soube desta notícia no blog do Nasi, e não posso disfarçar minha indignação: Cascão vai tomar banho. Segundo a nota publicada no site da revista Herói, Maurício de Souza fez a bombástica revelação no programa do Raul Gil.
Bem, por dúvida das vias, mantenho meus três pés atrás. Já fui tapeado muitas vezes por esses roteiristas de quadrinhos, que dentre outras peripécias mataram o Super-Homem, deram vida própria ao uniforme (?!) do Homem-Aranha e casaram o Pato Donald com a Margarida (mas tuuuuudo não passava de um sonho...). Espero que essa notícia não passe de mais um balão de ensaio, porque, oras, meus ícones de infância merecem mais respeito. Será que já não foi suficiente ver Didi Mocó substituir seus ex-colegas de Suat Mussum e Zacarias pelo Jacaré do Tchan e o Kléber Bambam?
8.2.03 Acaba de sair a terceira rodada de resultados parciais do prêmio iBest Blog, e, arre!, Pensar Enlouquece está entre os 5 sites mais votados. Apenas 3 blogs participarão da próxima fase do iBest, e por isso cá estou mendigando mais uma vez a ajuda de meus incautos leitores. Quem ainda não votou em mim precisa clicar aqui para participar da premiação. De quebra, estará concorrendo a um Citröen Xsara Picasso 0 Km, que será sorteado entre todos os eleitores cadastrados no iBest.
Mas... e quem já cumpriu seu dever cívico de bom cidadão? Bem, aí você pode colaborar ainda mais publicando o selo bacana abaixo (criado por meu amigo Ian Black) em seu site, ou lobotomizando amigos e parentes para que eles também participem da votação (e do sorteio do Citröen). Em tempo: no blog do Ian existem outras opções de banners de campanha em prol deste que vos escreve. Obrigado!
Artigo de Laura Mattos na Folha de S. Paulo discorre sobre a liderança de audiência da rádio Band FM em São Paulo. Com o slogan "Na Band é Bom Demais", a rádio tem se notabilizado por nunca veicular notícias ruins em sua programação. Nada foi informado, por exemplo, sobre os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos: a Band tocou axé e pagode e simplesmente passou por cima dos fatos. O seqüestro de Sílvio Santos só foi veiculado quando o apresentador havia sido libertado; ou seja, quando a notícia já era boa. Alienação? Sim, mas posso compreender isso. Diante da enxurrada de manchetes horríveis que nos metralham diariamente e que já são exploradas ad nauseam pelos programas vespertinos de TV, como criticar uma rádio que opta por ignorá-las?
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A coluna de Elio Gaspari, publicada na Folha de S. Paulo e n' O Globo, discorre sobre uma opção que o Governo oferece a Ministros de Estado que exercem mandatos na Câmara ou no Senado. Estes têm o direito de optar por receberem salário de Ministro (R$ 8.280,00 mensais, orçamento insuficiente para Gilberto Gil) ou parlamentar (R$ 12.720,00). Agnelo Queiroz, Anderson Adauto, José Dirceu, Marina Silva, Miro Teixeira e Ricardo Berzoini escolheram receber o salário maior, apesar de não estarem trabalhando no Congresso. A única exceção foi o senador eleito por Brasília Cristovam Buarque, que dá expediente como Ministro da Educação e renunciou a ser remunerado como parlamentar. Registrarei esta informação com carinho na memória.
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"Você ândia com pobrema no sistemia nelvoso? Tá cheio de minhóquia na cabecia? As bateria do seu celebro tá arriândio? Agoria seus pobremas se terminaro-se. Chegou o excrusivo Curço de Pinose do Seu Creysson. É só travéis da pinose que todo mundio pode arresolver os piripaque da cabecia!"
O parágrafo acima é transcrição ipsis litteris de "Seu Creysson, Vídia i Óbria", manual de analfabetização cometido pelo grupo humorístico Casseta & Planeta. Reportagem de Adriana Pavlova publicada em O Globo informa: esse treco aí já vendeu 60 mil exemplares. Acho que estou ficando burro, porque não entendo e não vejo a menor graça no Seu Creysson. Ou então virei um velho ranzinza, nostálgico de personagens como Zeca Bordoada e Barbosa. Ou melhor: Barbooooosa...
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Harold Bloom, o mais popular e polêmico crítico literário da atualidade, é o organizador da coletânea "Contos e Poemas para Crianças Extremamente Inteligentes de Todas as Idades", que compila textos de autores como Carroll, Kipling e Shakespeare. Em entrevista dada a Luis Antônio Giron para a revista Época, Bloom condena a série Harry Potter ("É bruxaria barata reduzida a aventura. É prejudicial ao leitor. A escrita é horrível.") e elogia as virtudes literárias do Alcorão ("Nestes tempos em que as religiões orientais são satanizadas, acho fundamental chamar a atenção para a qualidade literária de Maomé."). Por fim, fala de Machado de Assis, incluído por Bloom em sua lista dos cem maiores talentos literários de todos os tempos, ao lado de Homero, Octavio Paz, Italo Calvino, Shakespeare e Robert Frost. Afirma o ensaísta: "Ele (Machado) reúne os pré-requisitos da genialidade: exuberância, concisão e uma visão irônica ímpar do mundo". Bloom ainda afirma que procura (mas não encontrou ainda) um grande poeta brasileiro vivo.
6.2.03 "Tradutore... traditore". É difícil não associar o ditado italiano ao inacreditável Novo Guia da Conversação em Portuguez e Inglez, livro recentemente publicado pela editora Casa da Palavra. Originariamente publicado em 1855, esta obra é um clássico da "embromation society". Dentre inúmeras façanhas, o português Pedro Carolino, autor do livro, traduziu "carteiro" como "cardmaker", "vamos jantar" como "go to dine" e "então vou levantar-me depressa" como "it must then what I rise me quickly". Tais aberrações supostamente didáticas fizeram deste Guia um clássico do humor involuntário, tendo sido publicado em diversos países (o escritor Mark Twain escreveu o prefácio da edição norte-americana, publicada em 1883).
Aproveitando o mote, mas desta vez de maneira proposital, Millôr Fernandes escreveu "The Cow Went to Swamp", compilação imperdível de traduções literais de expressões brasileiras. Por exemplo?
Assobiar e chupar cana - To whistle and suck sugar cane Careca de saber - Bald of knowing Carioca da gema - Carioca of the egg's yolk Ela deu-lhe um pé no rabo - She gave him a foot in the tail Escreveu, não leu, o pau comeu - He wrote, didn't read, the stick ate Muito cacique pra pouco índio - Too many big-chiefs for few indians Rodar a baiana - To whirl the old woman from Bahia Tirar o cavalinho da chuva - To take the little horse out of the rain Uns gatos pingados - Some dropped cats
Last, but not least: clique nas singelas ilustrações deste post, e confira as hilárias charges da série "Pop Brasil em Inglês" criadas por Maurício Ricardo, com versões de sucessos do It's the Tchan, Only to Opposite, Bruno and Browne e Titans. It's good for hounds (é bom pra cachorro)!
A singela foto acima foi publicada no jornal interno da Blockbuster, quando este incauto que vos escreve ainda trabalhava lá (há cerca de sete anos). Bons tempos, diria eu. Via vídeos de graça, indicava filmes para a clientela e até mesmo me arriscava a participar de uma banda junto com alguns colegas de loja. Só zoeira, é claro, já que ninguém sabia tocar nenhum instrumento que não fosse reco-reco, triângulo ou campainha. O nome não poderia ser mais infame: New Kids on the Block. O grupo, é claro, não vingou (o mundo não estava preparado para o nosso som).
*
Eu tinha nove anos quando tive minha única experiência em um palco de teatro, durante uma apresentação de final de ano do Colégio Raio de Sol (que, singelamente, ficava em uma rua chamada Monte Alegre). Interpretei (sic) o papel de uma abelhinha que dançava ao som da trilha sonora de "A Arca de Noé", de Toquinho e Vinícius. Para o bem das artes cênicas, jamais paguei um outro King Kong desses num palco.
*
Quando o filme A Profecia foi exibido pela primeira vez na finada TV Manchete, confesso: não consegui assisti-lo até o final. Eu simplesmente me escondia debaixo dos cobertores nas partes mais assustadores. Ou seja, perdia o melhor do filme. De quebra, fiquei encanado com o "666" que o menino Damien possuía, como sinal de nascença, sob seus cabelos. No dia seguinte, fiquei escarafunchando minhas madeixas em frente ao espelho do banheiro, temendo ser o filho do Capeta.
*
Antes de dar meu primeiro beijo na boca, eu ficava treinando "técnicas" de movimentaçao labial no pulso da minha mão. Mas a grande dúvida permanecia: o que fazer com a língua? Tem coisas que a gente só apreende na prática.
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Quando meu primeiro namoro sério acabou, fiquei arrasado. Um desânimo total, vontade de ficar estatelado na cama do meu quarto, na penumbra, com os olhos fixos no teto pensando em como era insuportável aquela dor. Foi nessa época que comecei a ouvir Zezé di Camargo & Luciano. É sério: eu me identificava terrivelmente com cada letra. Imaginem a que ponto havia chegado um homem que cantava, em altos brados, versos como: "Eu não faço amor por fazer/ Tem que ser muito que prazer/ Tem que ser todo dia/ Sem cama vazia no amanhecer".
Sim, eu sei que poderia encontrar trilhas sonoras mais decentes para curtir fossa: Cowboy Junkies, Billie Holiday, Leonard Cohen, Chico Buarque, K. D. Lang. Mas o fato é que eu não queria pensar: estava burro, muito mais burro do que o habitual. Por isso, os versos despojados e desprovidos de jogos verbais de Zezé di Camargo & Luciano representaram a trilha sonora perfeita para um imbecilizado pela paixão. E canções como "Coração Está em Pedaços" e "Faz Mais Uma Vez Comigo" foram pura catarse para mim.
4.2.03 Encontrei este site no Divagando, e repasso a informação aqui: emoticons japoneses. Ao contrário dos similares ocidentais, como ;-), os emoticons da Terra do Sol Nascente são lidos horizontalmente, e não escondem a influência da linguagem gráfica dos mangás. Confiram algumas destas pequenas pérolas em ASCII:
\(^o^)/ - wow!
(*^_^*) - um sorriso ruborizado
(^^)// - aplausos!
(>_<) - ouch! (este não é a cara do Cartman de South Park?)
(-_-)zzz - puxando um ronco
(>_< )( >_<) - negação com convicção (notem a sugestão do movimento de menear da cabeça)
(;_;)/~~~ - tchau! (um emoticon patrocinado pela Kleenex)
Li hoje, na edição desta semana da revista Veja, matéria com a maior sensação musical do Chile: o grupo Axé Bahia. A banda possui a formação clássica de todo grupo de axé que se preze: três bailarinos (uma loira oxigenada, um negão sarado e uma morena gostesuda) e dois cantores não necessariamente afinados. Junte-se a essa fórmula algumas músicas com coreografia (praga surgida desde o advento de Macarena, desgraçadamente a canção mais influente dos últimos 20 anos) e letras com duplo sentido e títulos singelos como "Namorar Pelado (Beijo Na Boca)" e "Raimunda". O resultado? Os três álbuns já lançados pela banda venderam nada menos do que 200.000 unidades, o equivalente a 20 discos de ouro no Chile. Isso para não falar em todo o merchandising: a marca Axé Bahia está presente em toda uma série de quinquilharias, que reúne desde bonecos e gibis até uma série de perfumes com aromas como maracujá, coco e manga.
Nenhum dos integrantes do Axé Bahia é baiano (a loiruda Flaviana Seeling, apelidada de "La Tchutchuca", é curitibana), mas quem liga para isso? Importante é que as dançarinas do grupo já trataram de colocar implantes de silicone nos seios e mostrar, com muito orgulho no peito, a malemolência tipicamente tupiniquim.
A reportagem da Veja mostrando o triunfo do axé no Chile não chegou a me pegar de surpresa. Em maio do ano passado, recebi o e-mail de uma jornalista chilena que me pedia informações sobre o fenômeno "musical" (clique aqui e procure pelo meu post de 3 de junho de 2002 se você quiser ler a mensagem na íntegra). Ela certamente chegou até o meu nome movida por uma busca no Google, que deve ter resultado no texto "Axé Music Tem o Seu Valor", que publiquei há alguns anos. Como se vê, nem sempre o Google oferece as melhores respostas para as perguntas mais capciosas. Mas enfim, tentei ajudá-la no que podia: pesquisei alguns links que talvez pudessem ser úteis à matéria, e, com um portunhol pra lá de tosco, expliquei que a axé music era um singelo gênero no qual "las nadegas tienem major importancia do que los instrumientos musicales". Enviei o e-mail, mas não recebi nenhum feedback posterior da minha colega chilena.
Algum tempo depois, fuçando no Google, descobri que a reportagem chegou a sair e foi publicada com o título El oscuro origen del ritmo de moda. O incauto que se arriscar a ler a matéria descobrirá que os chilenos não fazem distinção entre axé e funk (cá entre nós, não fogem muito à realidade).
De qualquer modo, preparem seus ouvidos: após terem álbuns lançados no Chile, Argentina, Venezuela e Equador, o Axé Bahia pretende chegar às paradas de sucesso tupiniquins. Porém, por problemas de registro do nome, a banda será conhecida no Brasil com a alcunha de Grupo Tudo Bem. Não que isso faça diferença, é claro. Shakespeare, em sua peça "Romeu e Julieta", vaticinou: "What's in a name? That which we call a rose, by any other name would smell as sweet". O que vale para uma rosa certamente se aplica também a itens menos perfumados...
3.2.03 Acabou de sair, quentinha do forno, a edição número 2 da do repente, revista online em PDF editada pelo casal Kazi & Camila Kintzel. Cada edição é sempre baseada em um tema: o mote deste segundo número (que está bem legal) foi café. Não tive tempo para preparar uma colaboração este mês, mas pretendo mandar alguma coisa para a próxima edição, cujo tema será mentira. Aos desavisados que ainda não conhecem a do repente, publico abaixo o texto que enviei para o número 1, sobre... cu. O Ministério da Saúde adverte: os parágrafos a seguir contêm palavrões pra caralho. :P
Cu e Suas Foderosas Conotações
Bernard Pivot apresentou na TV5 francesa, durante 25 anos, o programa "Bouillon de Culture", dedicado a entrevistas com o chamado crème de la crème da literatura mundial. Ou não, uma vez que passaram pelo crivo de Pivot autores tão díspares como Georges Simenon, Vladimir Nabokov, Charles Bukowski, Erica Jong, Marguerite Duras, Anthony Burguess e Paulo Coelho. Esses gauleses são todos uns loucos.
Você me pergunta: mas o que o cu tem a ver com as calças? E eu explico: mais do que as entrevistas, o que notabilizou Pivot (particularmente na Gringoland) foi o famoso questionário criado pelo francês, que foi adotado por James Lipton em seu programa "Inside the Actor's Studio", no qual ele entrevista atores de Hollywood. Eis as perguntas:
- Qual é sua palavra favorita?
- E a palavra que menos aprecia?
- Qual a sua droga favorita?
- Qual o som ou barulho que mais gosta?
- Qual o seu palavrão predileto?
- Que outra profissão gostaria de seguir?
- E a que não seguiria?
- Se Deus existe, o que você gostaria que ele lhe dissesse ao lhe encontrar?
"Cu" é a resposta perfeita para pelo menos quatro das perguntas acima. Quais, eu não digo. Mesmo porque gosto é que nem cu, cada um tem o seu. Mas enfim. Palavra sonora e foderosamente sintética, "cu" recebe do dicionário Aurélio quatro diferentes conotações:
1. Ânus.
2. Nádegas.
3. Fundo da agulha, oposto à ponta ou bico.
4. A parte inferior de um poleame, oposta à cabeça.
Eu sei o que é "poleame", mas eu sei que você está cagando para tal vernáculo. Mais interessante é observar os exemplos que o Aurélio dá (ops) de expressões que têm "cu" no meio. Ei-los:
- Dar o cu. A definição fornecida pelo dicionário, "ser pederasta passivo", é insatisfatória. Oras, qualquer cinéfilo que assistiu a obras como "O Último Tango em Paris", "Instinto Selvagem" e "Buttman's Intimate Exposure" sabe que mulheres destemidas não tiram o seu cu da reta.
- Ficar com o cu na mão. Vaticina o Aurélio que tal expressão significa "ficar cheio de medo, apavorado". Tipo a Regina Duarte assistindo o Lula recitar as palavras do Duda Mendonça, tá ligado?
- Tirar o cu da seringa. Ou seja, "livrar-se de situação embaraçosa". Uma tradução menos sutil e mais expressiva do equivalente em inglês "pass the buck".
- Não ter no cu o que periquito roa. Adorável frase, não? Que significa, simplesmente, "ser extremamente pobre". Taí uma ótima resposta para quando o meu gerente do banco me encher o saco por causa da situação menstrual de minha conta bancária, sempre no vermelho. Isto é, se eu estiver de bom humor. Caso contrário, utilizar-me-ei de uma expressão mais banalizada, mas que nem por isso perdeu sua força catártica: vai tomar no cu (Pedro Ivo Resende recorda-me uma revigorante variação destas palavras: "vai tomar no olho do seu cu").
Cu. Taí uma palavra libertadora. Mas que, para recuperar sua força oral, necessitaria ser escrita com acento: cú. Que é pra foder (ou melhor, fuder) de vez com qualquer regra normativa da língua portuguesa. Ou acento, ou til. Porque só a sinuosidade de um til poderia vagamente expressar, graficamente, as reentrâncias e saliências tão particulares dessa sugestiva cavidade.
Cu. Repita esta palavra como um mantra. Não há, em toda a língua portuguesa, encontro tão feliz e poderoso de duas letras. Sinta a sua força: cu.
Acha que viajei na maionese? Tô cagando pro que você acha, mon ami. Qualquer coisa, enfia o dedo no cu e cheira.
Ônibus espacial deixando rastros de fumaça no céu. Antônio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e José Roberto Arruda de volta ao Congresso. Iminente guerra no Oriente Médio. Usineiros provocando aumento no preço dos combustíveis. José Sarney novamente no centro do poder.
Outro diálogo antológico, desta vez pinçado de Fulaninha, longa dirigido por David Neves e protagonizado por Mariana de Moraes, neta do poetinha Vinícius:
- Para curar um amor platônico, só mesmo uma trepada homérica.
Filósofos ainda não responderam minha dúvida: há realmente alguém lá em cima para ouvir nossas preces? O lado agnóstico que existe dentro de mim tem lá os seus pensamentos blasfemos. Mas, bem, ao menos em se tratando de bloglândia tupiniquim, já temos alguém para intermediar nossos pedidos. É São Nunca, que chegou para proteger os carentes por mais visitas, comentários e, principalmente, para olhar pelos usuários do Weblogger, que rogam para não ser despejados na sarjeta virtual feito os blogueiros do finado Desembucha.
"Quem é vivo sempre desaparece", já vaticinou o Barão de Itararé. Mas quem disse que milagres não acontecem? Depois de bater o recorde absoluto de comentários em um mesmo post, Mr. Matusalém Matusca finalmente saiu de seu sarcófago e voltou a blogar. De quebra, laureou este incauto que vos escreve com um daqueles botões genialmente haikaísticos que só mesmo os iniciados nos mistérios das pirâmides conseguem fazer. Vejam só que beleza de gif:
De quebra, fui presenteado na boa companhia de dois comparsas de olhos puxados: Hiro Kozaka e Marcio Takayama. Valeu, seu Matusca! Mande um beijabraço pra Matusalinda, e outro pra Zilda Meigaflores! =)
No entanto, quem me conhece já sabe que sou um japonês falsificado, legítimo produto made in Asunción. Não troco um Big Mac por mil sushis, e do idioma só sei falar arigatô, origami, Akira Kurosawa, Mitsubishi e olhe lá...
Reinaldo Ferreira foi um jornalista português a la Fellini. Entediado com a realidade, escrevia reportagens fantasiosas em que mandava os fatos às favas. Inspiradas pelo falsário de notícias (que, dentre outras peripécias, forjou entrevistas com Mata Hari e Arthur Conan Doyle), as blogueiras Civana e Suely criaram o concurso Repórter X (alcunha pela qual Reinaldo era conhecido). Quer saber mais? Clique aqui e participe.
Quando eu era criança, morria de medo de entrar em banheiros públicos e me deparar com a Loira Fantasma, uma morta-viva que assombrava WCs procurando por alguém que pudesse ajudá-la a tirar o algodão de suas narinas. Anos depois, descobri a verdade por trás dessa história. O repórter Mário Luiz Serra estava de bobeira em um plantão de domingo do finado jornal Notícias Populares (também conhecido pela alcunha "espreme que sai sangue"), em 1966. Sem crimes passionais ou mulheres desmembradas, estava difícil criar uma manchete bombástica. Foi quando apareceu na redação a foto desfocada de uma funcionária do jornal, que lembrava, vagamente, um fantasma. Mário Luiz aproveitou o mote e criou a antológica manchete LOIRA FANTASMA APARECE EM BANHEIRO DE ESCOLA. O cenário do banheiro, aliás, só foi escolhido em função do tamanho do texto a ser publicado na primeira página do NP. No dia seguinte, a edição esgotou nas bancas, diversos leitores contataram o jornal dizendo ter encontrado o espectro oxigenado, e uma nova lenda urbana foi imortalizada.
Histórias do outro mundo com um tempero bem brasileiro. Você já conhece a coluna Visagens, assinada pela jornalista Elis Marchioni? Demorô! Os causos do imaginário popular tupiniquim dão de dez a zero nos Gasparzinhos e halloweens da vida.
Sonhos sonhos são? A viagem onírica mais interessante na qual embarquei aconteceu assim:
- Estava eu subindo uma escada muito alta, tão alta que se erguia para além das nuvens. A certa altura, os degraus tornaram-se tão grandes que eu era obrigado a escalar um de cada vez para continuar subindo. E assim fui, de degrau em degrau até alcançar o cume. Só quando finalmente sentei para descansar e enxugar o suor que escorria da testa é que reparei: havia um elevador logo ao meu lado! Imediatamente logo após percebê-lo, o elevador abriu suas portas; dele desceram duas crianças, que não deviam ter mais do que cinco anos de idade. Nossos olhares se encontraram. Sem qualquer tom de malícia, censura ou gozação, elas apontaram seus dedos em minha direção. E então, sorriram para mim.
"Ela canta com sorriso nos lábios, como se conversasse, como se ela cantasse somente para mim, dizendo: 'Pra que chorar, se o sol já vai raiar, se o dia vai amanhecer'..."
O trecho acima, de Rachel Kizirian, faz parte de um belo texto que homenageia a cantora Claudia Telles na Revisita da Música Popular Brasileira. O site é parada obrigatória para os fãs da MPB. De Ataulfo Alves a Itamar Assumpção, passando por Baden Powell, Paralamas do Sucesso e Cartola, os grandes nomes da nossa música são celebrados aqui. Leia no volume máximo.
Via de regra, músicas com temática social tendem a ser um soporífero para os ouvidos. Até respeito o trabalho de gente como Joan Baez, Mercedes Sosa e congêneres, mas, pelamordedeus, não me chamem para um recital do tipo. Principalmente aos que vêm invariavelmente acompanhados por conclamações de "companheiros" a favor de causas como o Movimento pela Libertação das Mulheres Oprimidas da Albânia, a Associação dos Confeiteiros Anárquicos Contra a ALCA e afins.
Indignação com o status quo não precisa rimar, necessariamente, com patrulhagens ideológicas. Não me deixa mentir o babulina Jorge Ben, que antes de se tornar Benjor cunhou diversos álbuns obrigatórios em qualquer discoteca que se preze. Uma das melhores descrições da falta de perspectivas da classe média brasileira, a canção "Meus Filhos, Meu Tesouro", está gravada em África Brasil, álbum de 1976. Eis a letra:
Airto Miró, diga lá, menino
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser jogador de futebol
Jogador de futebol
Anabela Gorda, diga lá, menina
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser dona de casa atuante ou mulher de milionário
Dona de casa atuante ou mulher de milionário
Jesus Corrêa, diga lá menino
O que é que você quer ser quando crescer?
Eu quero ser tesoureiro-presidente ou liberal como você
Tesoureiro-presidente ou liberal como você
Estes são meus três filhinhos
Airto Miró, Anabela Gorda, Jesus Corrêa
Esses são meus três anjinhos
Jesus Corrêa, Anabela Gorda, Airto Miró
Meus filhos, meu tesouro, meu futuro
27 anos depois, a letra permanece terrivelmente atual.
Atribui-se a Jânio Quadros a autoria da frase "mudam as moscas, mas a merda é sempre a mesma". Ao ver ACM, Barbalho e Arruda reconduzidos ao Congresso, penso cá com meus botões: mudam?
1.2.03 Eu, procrastinador compulsivo, não possuo a desejada disciplina para a escrita, e por várias vezes sou obrigado a reciclar velhos textos para espantar as teias de aranha deste espaço virtual. Lamento pelos incautos que acompanham minhas escrevinhações há mais tempo, e acabam se deparando com um festival de reprises digna de Sessão da Tarde. Ainda assim, prefiro isso a agir como muita gente bem intencionada que, meio que compelida por uma injustificada necessidade de atualizar diariamente seus blogs, recheia suas lingüiças virtuais (no bom sentido, pô) com resultados de testes imbecis, fotos de gatos, letras de música ou textos apócrifos do Veríssimo.
O parágrafo acima mata à queima-roupa dois coelhos duma vez: justifico a republicação do texto no post abaixo (outro velho conhecido dos leitores de meu site abandonado no UOL) e a seleção a seguir, digna das melhores compilações do Copy & Paste, na qual apresento cinco excelentes alternativas a todos os leitores que passam por aqui e se decepcionam com a ausência de novos textos recém-saídos do forno dos meus neurônios. Como diria um camarada meu: ih o cara, mó caô, aí ó!
5 BLOGS QUE PRECISAM SER ACRESCENTADOS AO SEU BOOKMARK:
FDR - "Alguém aí lembra do seriado 'Super-herói americano', que passava no SBT? O super-herói do título era um professor de segundo grau que, certo dia, encontra pela primeira vez extraterrestres fora da sala de aula. Não se sabe por que diabos, os pequenos homens verdes vão com a cara do professor e lhe oferecem uma roupa de presente. Claro que não uma roupa normal. Ninguém viaja sete milhões de anos-luz para dar uma roupa normal de presente. A roupa é mágica. Dá superpoderes ao professor. Se você tem superpoderes, sabe que não é nada fácil aprender a usá-los. Por isso o professor também recebe um manual. Ele perde o manual. Passa então a voar trombando em outdoors e a cometer outras trapalhadas, enquanto tenta combater o mal e a injustiça.
Eu desci a Terra em 1974 e ainda não aprendi a viver direito. Também perdi o meu manual. Seu título era: 'Como se comportar durante sua infeliz vida no Planeta Terra'. Alguém aí ainda o tem? Poderia me enviar uma cópia?"
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como assim dois uísque? - "a árvore foi caindo como se ainda quisesse estar em pé, numa relutância de galhos e folhas poucas vezes vista. rangendo e se lamentando, resisitindo aos choques do metal afiado contra seu caule, sem sucesso. caiu e levou consigo mais de um século de animais que por ali passaram, viveram, se criaram e parasitaram, morreram e mataram. enxugando o suor da testa com as costas da mão e bufando, o lenhador percebeu que ali, naquela árvore, andara de balanço quando era criança, que na sombra dela tivera seu primeiro beijo na sua primeira mulher, que ali escondera por birra, há muito e entre os galhos mais altos, um martelo de seu irmão, por fim esquecido, quando o tempo de trabalhar chegou. azar, ainda tinha muitas pra cortar e não podia ficar perdendo tempo com nostalgia. caminhou à arvore adjacente e deu o primeiro golpe no caule, que estremeceu sentindo o fim. um martelo enferrujado lá dos galhos mais altos caiu, acertando-lhe a cabeça e matando-o na hora.
alguém teve a mesma idéia que ele, talvez antes, talvez depois.
vida besta."
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Radamanto - "Eu, como descendente direto de italianos, requeiro quotas. Minha genética européia me põe em desvantagem com os habitantes mais brasileiros que eu (entenda-se os de pele mais escura que a minha). Não suporto o calor dos trópicos, para o qual não fui talhado, sendo que meus ascendentes vêm de regiões frias e alpinas. Na escola, meus amigos me desprezavam e humilhavam, me chamavam de 'cabeça de brachola', 'projeto de Mussolini' e 'filhote de Albinoni com Mama Bruscheta'. Até os 12 anos meu apelido era Lasanha. Tinha que ouvir as piadas racistas contra os italianos calado e quando o Brasil jogava contra a Itália, os outros moleques ameaçavam me espancar caso a Itália ousasse vencer. Paolo Rossi era meu vingador secreto, eu guardava um velho recorte de jornal com uma foto sua estampada. Às vezes, à noite, tirava a fotinha da minha caixa de coisas secretas e ficava a contemplar sua esguia figura repetindo para mim, baixinho: 'forza azzurra!'."
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Pura Goiaba - "Quando criança, eu acreditava que o mundo fosse bom - um lugar em que Rose Di Primo deixava cair uma gota de iogurte Chambourcy entre seus seios e Perla nos convidava para uma viagem pelos rios da Babilônia no seu barco azul. Mas tudo isso desmoronou: Rose Di Primo virou evangélica, o iogurte Chambourcy não existe mais e Perla há muito tempo não fala de barcos, embora continue cantando 'Recuerdos de Ypacaraí'. Faz sentido: o mundo foi feito para acabar numa bela guarânia."
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Alexandre Soares Silva - "'Morre um liberal, mas não morre a liberdade', disse Libero Badaró ao ser assassinado em 1830.
Que frase estupidamente pomposa. Especialmente na hora da morte. Fico imaginando, nesse momento, seus filhos se entreolhando: 'Ai, como papai é chato'.
Se eu morrer na rua, espero ter algo espirituoso para dizer, ou não dizer nada. Ou, vá lá, dizer algo banal, humano, como 'Tem uma pedra debaixo da minha bunda, tira, tira!' Mas não uma coisa pomposa dessas como a que Libero Badaró disse. Imagine uma atriz pornô dizendo ao morrer: 'Morre uma atriz pornô, mas não morrem os filmes pornôs'. Não, atrizes pornôs são menos pomposas (de modo geral) do que um idealista político; o que me faz pensar que, se eu passar por uma rua em que um idealista político e uma atriz pornô estão morrendo ao mesmo tempo, vou ouvir o que a atriz pornô tem a dizer, que deve ser menos chato."